Daniel Hidalgo
O fotógrafo que virou encadernador
Dono da Hidalgo Encadernações, Daniel Hidalgo, 46 anos, está animado. Talvez porque o mercado de casamentos passa por evoluções de design, de nível dos profissionais e da tecnologia.
O digital trouxe novas perspectivas e deve crescer o número de encadernações este ano. Ajudam também os números de casamentos que, segundo recente pesquisa do IBGE, estão em alta. O que reflete diretamente na indústria de encadernações e álbuns. Hidalgo gosta de inventar, tanto que em breve terá uma máquina de encadernação projetada por ele para reduzir perdas e aumentar a produtividade. Inovar e lançar produtos são outra constante, por mais que ele assuma que nos últimos tempos estava "meio dormindo". Mas pelo que já fez até hoje se acostumou com as cópias dos concorrentes. Antenado com as novidades, está animado com os desafios que o mercado tem apresentado nos últimos anos. Um deles é a relação que tem com profissionais. E ele pode dizer que conhece bem os clientes, pois Hidalgo foi fotógrafo de casamento durante muitos anos antes de montar sua indústria. Bom de conversa e ciente do papel que cumpre, Hidalgo contou para FHOX seus planos, a relação com os fotógrafos e sua visão futura do mercado.
FHOX - Como chegou ao mercado?
HIDALGO - Era fotógrafo de casamento, social, e comecei porque tinha dificuldade com encadernação. Em 1987, quando iniciei, só havia duas ou três encadernações em São Paulo. Uma grande e outras bem pequenas. Quando fotografava eu recebia uma parte e quando entregava o álbum, a outra. Tinha conta para pagar, pôr comida em casa. Então chegava à encadernadora e eles falavam que para entregar levava 40 dias. Perguntava se não tinha jeito de melhorar o prazo. Eles me diziam: "Se não quiser, ponha naqueles álbuns de envelope e suma daqui". Era muito maltratado em relação a prazo, apesar de hoje ainda existir o problema.
FHOX - O senhor foi fotógrafo por quanto tempo?
HIDALGO - Durante 15 anos. Demorava para fazer as provas, demorava para entregar para os noivos, tudo demorava. No fim, a encadernação, quando todos estão desesperados e precisam do álbum para ontem. Inconformado, desmontei um álbum e comecei a fabricar no final de 1986. Em 77, quando tinha 17 anos, comecei a fotografar. Foi uma boda de prata do pai de um colega da escola. Eu gostava muito de fotografia. Desde bem moleque trabalhei, comecei aos treze e acabei entrando por acaso na fotografia.
FHOX - Por que elegeu a encadernação?
HIDALGO - Por estar inconformado com o jeito que me tratavam. Nesse tempo não tinha encadernadora em nenhum lugar, só no Estado de São Paulo. Comecei com tudo arcaico, com prensa, não tinha guilhotina e levava os álbuns em carrinho de feira até a gráfica de um amigo para refilar. Andava três quilômetros com o carrinho (risos). No começo meu amigo refilava e depois eu mesmo fazia isso. Eu fazia tudo sozinho. E tudo porque comecei desmontando um álbum mesmo. Até 1990 não ganhava para sustentar a casa, porque na encadernação você tem um número de álbuns que precisa produzir para ganhar alguma coisa. Qualquer encadernadora, por menor que seja, tem de ter 200 álbuns por mês no mínimo para ganhar algum. E só a partir de 500 álbuns por mês que você consegue ter lucro. De 87 a 90 quando lancei o estojo do álbum, era bem diferente do que é hoje. Fui o primeiro a criar a maleta do jeito que é hoje. Isso foi no início dos anos 90. Usei couro sintético, porque antes era de um material muito fraco. Fomos a primeira a usar esse material, só que me cortava, inclusive o meu polegar. Aí fiz ponto falso porque tinha de trabalhar. Na semana seguinte foi o indicador na mesma mão. Enfiei o dedo na serra (mostra a cicatriz).
FHOX - Nessa época, o senhor tinha gente que o ajudava?
HIDALGO - Duas pessoas. Não vou dizer que eram funcionários porque eu estava informal. Não conseguia ter lucro. Aí meu tio ficou seis meses buzinando na minha orelha: "Vamos montar outro negócio. Você se machuca muito". Resolvi aceitar. Do final de 90 a 94, montamos um atacado pequeno de jóias. Foi a pior época da minha vida porque eu não conhecia o ramo. Ele era fabricante de jóias, mas sem conhecimento de comércio. Foi um ano fazendo besteira e outros três para cobrir os erros. Saí do negócio sem absolutamente nada. Voltei para encadernação em 95 com ajuda de meu maior cliente. Ele me ajudou mesmo, porque eu não tinha um real.
FHOX - E como se recuperou?
HIDALGO - Tudo o que há hoje de encadernação começou com a Hidalgo. Fototela na capa, bordado, estojo em dois volumes. Cortes dourado e prateado já existiam, mas um cliente exigiu que eu fizesse e aprendi meio na marra. O estojo-volume foi também exigência do mesmo cliente. A filha dele tinha feito 15 anos e ele me disse: "Quero dois álbuns, mas não um em cima do outro". Fiquei pensando como ia fazer, até que vi uma pilha de estojos e observei que tinha um sobre o outro. Na hora fiz um modelo e entreguei a ele. Naquele tempo, quando uma pessoa pedia dois volumes, eu dizia: "Vou fazer um modelo novo". Ela respondia que os noivos não iam gostar. E na entrega as pessoas adoravam. Em 90, fizemos o primeiro álbum com foto panorâmica. Na PhotoBrazil, as pessoas tiveram contato com o produto e ficaram impressionadas. O pessoal do Sul foi ao estande e achou muito bonito, mas alguns disseram que não ia funcionar lá, por conta do tamanho das fotos que, segundo eles, era muito grande. Liguei para Isa Reichert e Fabio Martins, fotógrafos do Rio Grande do Sul. Aí o Sul começou a entrar forte na encadernação, a partir de 98. A Hidalgo foi inovadora em tudo, até o fato de ir para feira e mostrar seus produtos ao Brasil inteiro.
FHOX - O senhor sempre atende às vontades dos clientes?
HIDALGO - Depende, porque o fotógrafo não entende de encadernação. Tem coisas que eles pedem que não são possíveis, como o caso da foto panorâmica em duas páginas. Acho que não é possível, mas eles querem. É um risco desnecessário, porque um álbum tem de durar pelo menos vinte anos. Tenho aqui álbuns de bodas de prata para reformar. A capa está estragada, não agüenta mesmo, mas o miolo do álbum está perfeito. Só que aquela foto inteira vincada, tenho certeza, não dura vinte anos. Era uma coisa que antes eu não fazia. O fotógrafo quer que você faça oito modelos exclusivos para ele. Hoje nós temos 160 cores. Quando iniciamos tínhamos 24. E, mesmo assim, chegam e perguntam se eu não tenho outras. Quer dizer, o fotógrafo quer se diferenciar é no álbum.
FHOX - Pedem exclusividade?
HIDALGO - O ideal seria se pudéssemos fazer uma coisa exclusiva para cada um, mas seria caso de artesão. Na encadernação não é possível. Muitas coisas que eles pediam eu até testava, mas não dava. Tivemos uma capa de aço escovado, com a imagem gravada no aço em retícula. Tinha muito problema, usava uma química forte, um produto agressivo. Ainda hoje me perguntam dessa capa. Sugiro fazer em algum lugar especializado. Adoro o que faço, sou apaixonado. Tem hora que me sinto mal porque não consigo atender. Trabalhamos sempre no limite de produção. Consegui desenvolver um projeto de uma máquina que vai servir para todos os modelos e tamanhos de álbum. Isso vai agilizar o processo. O objetivo é atender o cliente em dez dias no máximo.
FHOX - E o que representa mais no faturamento da loja?
HIDALGO - A ótica. Porque tenho um digital que não é barato. Mas aconteceu algo muito legal outro dia. Um cliente tinha 500 fotos para fazer. Começou a brigar por conta de preço. Disse para ele que não conseguia baixar preço e que, se quisesse, mostraria a nota fiscal. "Não tenho como. Agora uma coisa que posso te falar é a minha qualidade", sei que vou tirar os olhos vermelhos. Posso melhorar a foto. Disse para ele: "Realmente são 500 fotos". Depois ele foi lá e fez no Wal-Mart, só que voltou aqui e fez todas de novo com a gente. Ele disse: "O barato sai caro". Pegamos uma das fotos que ele tinha feito lá e outra aqui. Não tem base de comparação.
FHOX - Hoje sua produção está próxima do limite?
HIDALGO - Bem próxima. Tem dias que ultrapassa e dias que vem menos. Não há o que fazer. Como o prazo hoje está maior dá para pegar a produção da frente e adiantar alguma coisa. Mas para ganhar um dia de atraso da encadernação levo pelo menos um mês ou um mês e meio. Quando chega a quatro dias de atraso levo três meses para recuperar. O processo é muito demorado. Um álbum demora três horas para ser produzido, fora o tempo de espera. Não conseguimos diminuir isso. Tenho 76 funcionários, tem dias que a pessoa chega e não está disposta. Cai sua produtividade e a do departamento.
FHOX - O mercado é rentável?
HIDALGO - As pessoas imaginam "o Hidalgo é milionário". Não é bem assim. A encadernação nos últimos dez anos achatou muito o preço. Em 96, por exemplo, uma encadernação custava o mesmo que 50 fotos do tamanho do álbum. Um álbum 24 por 30 custava 54,20 reais e as fotos custavam os mesmos 50 reais. Hoje 50 fotos 20 por 30 custam 200 reais e a encadernação, 92 reais. Tivemos um achatamento no preço da encadernação por conta da concorrência. Se fosse há dez anos seria muito simples. Hoje, não. Um trabalho artesanal, uma prestação de serviço porque você faz a montagem do fotógrafo. Temos uma rentabilidade igual a de uma indústria pequena, de 10%. Chegamos a ter 6% e até negativa.
FHOX - O ganho é na quantidade?
HIDALGO - Tem de ser. Hoje quem pensar em montar uma encadernadora, só com uma pessoa, vai entregar 50 álbuns por mês suando demais a camisa. Quando comecei, virava a noite colando foto. Geralmente tinha de entregar cedo na sexta. Então, começava às sete da manhã de quarta e terminava na quinta às onze da noite sem parar. Tem fotógrafo que chega aqui e diz que tem volume grande e pede desconto. Digo que mesmo se tiver mil álbuns por mês não posso fazer isso. A rentabilidade já é baixa. Se eu der 5%, você não vai ajudar nem a ele nem a mim. Com relação a desconto, ainda estamos acostumados à inflação de antigamente. As pessoas continuam acreditando que 5% é muito pouco de desconto.
FHOX - E os escritórios que a Hidalgo está preparando? Como serão?
HIDALGO - Teremos no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Eles vão captar o serviço. Hoje eles enviam via Sedex e os que têm mais serviço enviam via transportadora. Os escritórios vão funcionar como uma central, vamos reunir todos os serviços de um dia, colocá-los todos em um pacote que será enviado para encadernação, via terrestre. Aéreo é muito caro e eles jogam o material. Além de ir no compartimento de carga, a dez graus negativos. Se vier de Porto Alegre para cá, pega 20 graus negativos. Sofre um choque muito grande. O ideal seria ser sempre terrestre, que é bem mais barato. Hoje, com essa concentração de álbuns, tem fotógrafo que gasta 180 reais só com transporte. No novo sistema o custo vai cair para 12 reais se for, por exemplo, de Porto Alegre a São Paulo.
FHOX - É verdade que o senhor fez um manual para o fotógrafo?
HIDALGO - Fizemos no ano passado, para dar algumas dicas. A encadernação começa no fotógrafo, nas informações que ele passa para nós do que ele quer. Muitas vezes as informações não vêm completas. Outra coisa que acontece muito é numerar fotos com caneta. Canso de pedir para que os fotógrafos não façam isso, é horrível. A tinta migra para a superfície da foto. Eles devem usar só giz de cera e lápis (dermatográfico). Eles precisam colocar o número porque quem determina a ordem das fotografias é o fotógrafo. Há uma dificuldade de comunicação da encadernação com o fotógrafo. Encadernação é uma coisa muito corrida. Estamos também instalando um programa novo na Hidalgo para gerenciamento da produção e o fotógrafo vai ter acesso a ele. Com senha, via internet, vai saber tudo que enviou. Quando o material chegar aqui ele vai receber aviso por e-mail, comunicando o prazo de entrega do álbum. Vamos procurar ter uma integração maior com os profissionais.
FHOX - O senhor pensa em adquirir um minilab?
HIDALGO - Penso. Já tínhamos conversado com a Noritsu e era para ter chegado. Mas cancelei porque resolvi pegar esse investimento e colocar nesses equipamentos de encadernação. Quer dizer, preciso primeiro deixar a encadernação perfeita, senão eu ia arrumar outro problema e não uma solução. O minilab vai ter que fazer parte, sem minilab não vai funcionar.
FHOX - O senhor tem a intenção de no futuro fazer revelação e montagem de álbuns pela internet?
HIDALGO - Sim. Porque daqui há dois anos, se eu não tomar cuidado, o vizinho aqui da empresa pode receber um álbum encadernado lá da China entregue na porta de casa. Inclusive mais barato do que eu faço. Por isso a internet vai ter de funcionar.
FHOX - E dentro desse processo de encadernação, por ser artesanal, existem etapas que pedem um cuidado maior?
HIDALGO - A triagem é logo quando o álbum chega. Precisa ser um departamento perfeito. Nesse novo sistema, o cliente já poderá fazer o pedido pela internet. Ele mesmo preenche a ordem de serviço e envia on-line para gente. A ordem chega na frente, as coisas que podem ser produzidas com antecedência serão feitas. E quando a fotografia chegar, é só finalizar o álbum.
FHOX - Com tantas coisas lá fora, por exemplo, álbuns que não riscam, o senhor acredita que no Brasil é possível ter este tipo de produto?
DANIEL - No Brasil não temos tecnologia para produzir este tipo de material. "Nós" é a indústria brasileira. O material dos álbuns que não riscam é chamado de poliuretano bidirecional. É feito de tecnologia diferente que permite realmente uma resistência muito grande. Há materiais que resistem até a prego. No Brasil, estas novidades estrangeiras não são produzidas porque não há procura. Mas as idéias do que acontece lá fora já estão ocorrendo. Como os miniálbuns. As idéias são excelentes, mas temos de adaptá-las para o que temos aqui.
FHOX - E qual o grande objetivo da Hidalgo?
HIDALGO - É vender para o vizinho da encadernadora do chinês, lá na China (risos). Sério mesmo. Acabaram as barreiras. Enviei um álbum para os Estados Unidos ontem, 300 reais só de frete. Era um álbum grande, pesado, e para um fotógrafo brasileiro que mora lá. Ele envia para cá para fazer as fotos e encadernar. Custou caro, mas dependendo do volume, pode valer a pena. A idéia é mais ou menos essa: concorrer com eles em outro lugar para vender para os Estados Unidos e Japão. Por isso o minilab terá de existir. Estou superconfiante. Essas mudanças que estão acontecendo deram um novo ânimo. Já começamos a surpreender de novo.